O homem disse, Está a chover, e depois, Quem é você, Não sou daqui, Anda à procura de comida, Sim, há quatro dias que não comemos, E como sabe que são quatro dias, É um cálculo, Está sozinha, Estou com o meu marido e uns companheiros, quantos são, Ao todo, sete, Se estão em pensar a ficar conosco, tirem daí o sentido, já somos muito, Só estamos de passagem, Donde vêm, Estivemos internados desde que a cegueira começou, Ah, sim, a quarentena, não serviu de nada, Por que diz isso, Deixaram-nos sair, Houve um incêndio e nesse momento percebemos que os soldados que nos vigiavam tinham desaparecido, E saíram, Sim, Os vossos soldados devem ter sido dos últimos a cegar, toda a gente está cega, Toda a gente, a cidade toda, o país,
SARAMAGO, J, Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.
A cena retrata as experiências das personagens em um país atingido por uma epidemia. No diálogo, a violação de determinadas regras de pontuação
A literatura de José Saramago é marcada por características bastante particulares, como a alternância de sinais de pontuação e o uso de períodos longos, singularizando o estilo do autor. No trecho lido, tal uso sugere uma atmosfera caótica, explicitando a tensão de um ambiente em que a ordem social se apresenta subvertida pela cegueira coletiva.