Texto 1
Pós-verdade. Este não chega a ser um termo novo. Tem uma década, pelo menos. Mas nos últimos tempos seu uso passou a ser mais frequente em artigos acadêmicos, nos jornais e, finalmente, nas ruas. Então, em 2016, o Dicionário de Oxford escolheu este termo como a palavra do ano. Pela definição do dicionário, significa “algo que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência para definir a opinião pública do que o apelo à emoção ou às crenças pessoais”. Em outros termos: a verdade perdeu o valor. Não nos guiamos mais pelos fatos. Mas pelo que escolhemos ou queremos acreditar que é a verdade.
A palavra se tornou recorrente depois da surpresa do Brexit e da eleição presidencial nos Estados Unidos. Mas pode perfeitamente ser aplicada ao nosso momento político. Para o jornalismo, é uma má notícia. O terreno da internet tem se revelado fértil para a propagação de mentiras – sempre interessadas. Levamos tanto tempo para estabelecer uma visão “científica” dos fatos, construir a isenção do jornalista, a independência editorial e, de repente, vemos que o debate político se dá entre “socos e pontapés”. A pós-verdade arrasta o jornalismo, a política, a justiça, a economia, a nossa vida pessoal...
(Luiz Cláudio Latgé. “O mundo pós-verdade”.
http://oglobo.globo.com, 23.11.2016. Adaptado.)
Texto 2
Notícias falsas sempre circularam, sobretudo nos estratos menos expostos ao tradicional jornalismo e a outras formas de conhecimento verificável. A novidade é que as redes sociais da internet se mostram o veículo ideal para a difusão dessas notícias. Não apenas estapafúrdias, como seria de esperar, mas às vezes inventadas de modo a favorecer interesses e prejudicar adversários. A circulação instantânea, própria desse meio, propicia a formação de ondas de credulidade. Estimuladas pelos algoritmos das empresas que integram o oligopólio da internet, essas ondas conferem escala e ritmo inéditos à tradicional circulação de boatos. Dado que as pessoas, nas redes sociais, tendem a se agregar por afinidade de crenças, não é difícil que os rumores se disseminem sem ser confrontados por crítica ou contraponto.
O melhor antídoto contra as falsidades apresentadas como jornalismo é a prática do bom jornalismo, comprometido com a veracidade dos fatos que relata e com a pluralidade de pontos de vista no que concerne às questões controversas. Numa reportagem que serve como exemplo de jornalismo bem realizado, esse ano um repórter comprovou que existem no Brasil sites dedicados à exploração comercial de notícias falsas ou distorcidas. Embora haja remédios legais para reparar os excessos, a maioria dos casos passará despercebida no ruído incessante da internet.
O fenômeno se associa de modo preocupante à política. Exemplo máximo dessa maré é o presidente norte-americano, Donald Trump, que move campanha obstinada contra os veículos dedicados ao jornalismo profissional. Bastaria isto para ressaltar a que tipo de interesses convém a confusão entre notícia e falsidade. No Brasil, guerras contra a imprensa são antigo costume de pessoas que não querem prestar contas de seus atos.
(“Mentiras em rede”. www.folha.uol.com.br, 26.02.2017. Adaptado.)
Texto 3
Na tese do jornalismo tradicional de todos os países, a “pós-verdade” disseminou-se por culpa da internet e das redes sociais. De acordo com a revista britânica The Economist, “a fragmentação das fontes noticiosas criou um mundo em que mentiras, rumores e fofocas se espalham com velocidade alarmante. Mentiras compartilhadas on-line, em redes cujos integrantes confiam mais uns nos outros do que em qualquer órgão tradicional de imprensa, rapidamente ganham aparência de verdade.”
É uma visão confortável que relativiza, quando não omite totalmente, a responsabilidade da própria imprensa na eclosão do fenômeno. “Os indivíduos e os veículos que mais alertam contra os perigos das ‘falsas notícias’ e da ‘política da pós-verdade’ são os maiores disseminadores delas”, resume o jornalista inglês Neil Clark. O máximo que esses veículos admitem é que alguns mecanismos do jornalismo que praticam não funcionam. “A busca da ‘imparcialidade’ na veiculação de notícias com frequência cria um falso equilíbrio, à custa da verdade”, afirma The Economist. Expostos a um jornalismo que cultiva o pensamento único, os brasileiros, por exemplo, não encontram uma segunda opinião para acreditar, visto que a prática basilar do jornalismo, de sempre ouvir o “outro lado” nos assuntos apurados, faz tempo que entrou em desuso por aqui. Não é pelo excesso de versões, portanto, senão pelo seu exato oposto, que a opinião pública nacional desacredita dos fatos e se nutre de factoides imaginários, cevados na ignorância e no preconceito.
A “pós-verdade” talvez expresse, no plano do jornalismo, a mesma perda de credibilidade que afeta a política. Uma imprensa que se acredita “a serviço do Brasil” padece hoje da desconfiança do público, que sabe que essa imprensa lê o mundo pela ótica estrita de seus interesses e que são eles que definem as notícias, não a importância dos fatos. O cidadão comum posiciona-se sobre um terreno movediço de informações, cada vez mais instável, e precisa angustiadamente da segurança das certezas. À era da “pós-verdade”, portanto, corresponde um “pós-jornalismo”, que não mais duvida, pergunta, reflete e busca interpretar a complexidade do mundo, mas que afirma categoricamente, sentencia, reitera, constrói a realidade conforme os lobbies que faz ou defende. Na balbúrdia da vida digital, no caos informativo das redes sociais, ele é apenas uma fonte a mais de “convicções”, não uma bússola para a informação confiável. Mas, prepotente, prefere atacar a internet e demais distribuidores de conteúdos do que fazer a autocrítica dos próprios defeitos.
(Gabriel Priolli. “A era da pós-verdade”.
www.cartacapital.com.br, 13.01.2017. Adaptado.)
Com base nos textos apresentados e em seus próprios conhecimentos, escreva uma dissertação, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema:
Os desafios do jornalismo na era da pós-verdade
Este ano, em sua primeira edição, o vestibular da Santa Casa solicitou que o candidato produzisse uma dissertação sobre um tema atual: OS DESAFIOS DO JORNALISMO NA ERA DA PÓS-VERDADE.
A proposta de redação apresentou uma coletânea rica, propícia, portanto, para que o candidato fizesse uma escolha bastante variada de teses e argumentos, centralizando sua análise nos DESAFIOS ENFRENTADOS PELO JORNALISMO diante dessa questão. Elencamos, a seguir, algumas informações e opiniões importantes da coletânea que poderiam nortear a análise do tema e a produção da dissertação:
Texto 1
- A definição de pós-verdade retirada do dicionário Oxford, segundo a qual “os fatos objetivos têm menos influência para definir a opinião pública do que o apelo à emoção ou às crenças pessoais”.
- A afirmação de que o conceito é um fenômeno mundial, ainda que tenha se iniciado a partir do Brexit e da eleição presidencial americana.
- O posicionamento do autor de que a pós-verdade é uma má notícia para o jornalismo tradicional e que a internet é um terreno fértil para a propagação de pós-verdades.
- A visão objetiva dos fatos, “a isenção jornalística e a independência editorial” ficam ameaçadas pela visão mais subjetiva das relações políticas, econômicas e jurídicas.
Texto 2
- A produção de notícias falsas e as “guerras contra a imprensa” não são acontecimentos atuais.
- As pós-verdades têm por intuito o favorecimento dos interesses de um grupo específico.
- A instantaneidade da propagação de fatos provoca uma onda na circulação das informações, principalmente entre grupos de interesses e crenças afins.
- O antídoto contra as falsidades seria o exercício do “bom jornalismo”, que se traduz como a responsabilidade pela difusão da “pluralidade dos pontos de vista”, ainda mais em se tratando de questões polêmicas e da complexidade do mundo moderno.
- Há sites que se especializaram em falsas notícias e que as exploram comercialmente.
- Há uma maior preocupação quando o fenômeno se associa à política, que se aproveita desse contexto para cercear a prática jornalística em vista de benefícios eleitorais.
Texto 3
- O autor do texto credita ao jornalismo que “cultiva o pensamento único” o advento e a disseminação da “pós-verdade” por meio da internet.
- Os veículos de comunicação têm perdido a credibilidade porque leem o mundo pela “ótica estrita de seus interesses” e definem as notícias e a visão de mundo sem considerar a complexidade da modernidade. Nesse contexto, não cabem a dúvida nem a reflexão sobre o que se noticia, o que é nocivo para a isenção que se deveria buscar.
- O jornalismo está se tornando uma fonte a mais de informação e de convicções, uma vez que o público não mais confia nele irrestritamente.
- A fragmentação das fontes de notícia, aliada à falta de confiança nos tradicionais órgãos de imprensa eleva as redes sociais ao status de divulgadoras da verdade, apesar do preconceito e da ignorância que muitas vezes as caracterizam.
Seguem alguns encaminhamentos para a discussão dos desafios de se fazer um jornalismo sério e objetivo diante da competição com as redes sociais e sua onipresença na vida moderna:
- Adotar explicitamente posicionamento diante de polêmicas sociais e questões políticas, em vez de mascará-las sob uma pretensa imparcialidade.
- Mudar a concepção de que o jornalismo detém a verdade, assumindo deliberadamente que deve buscá-la.
- Lutar contra a “comercialização” das verdades.
- Incorporar a pós-verdade nas pautas a fim de, comparando diferentes versões dos fatos, mostrar os perigos da disseminação inconsequente de informações.