ANÁLISE DA PROPOSTA
Na segunda aplicação do exame do Insper deste ano, foi solicitado ao candidato que redigisse um texto dissertativo-argumentativo sobre um tema atemporal e com ramificações em diversas áreas da vida em sociedade: “Desenvolvimento econômico sustentável: desafios e oportunidades.” Para delimitar o recorte temático e oferecer suporte para a elaboração do posicionamento e dos argumentos, a banca examinadora apresentou uma coletânea composta por três textos, com opiniões e informações sobre o tema.
O Texto 1 defende um modelo de desenvolvimento econômico sustentável que concilie crescimento, educação e preservação ambiental, tal como se debateu na COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada no Brasil em 2025). O atual modelo econômico, que considera uma curva linear de crescimento por meio da exploração ilimitada da natureza, é, na verdade, incompatível com a finitude dos recursos naturais, com a sustentabilidade do planeta e com as desigualdades sociais e territoriais. Neste contexto, a proposta de um desenvolvimento econômico sustentável poderia criar novas oportunidades, como empregos e negócios em setores como os de energia renovável e tecnologias limpas.
O Texto 2 estabelece uma relação entre o desmatamento e a precariedade socioeconômica de determinadas regiões do país. De acordo com Priscila Claro, diretora de graduação do Insper e líder do Núcleo de Sustentabilidade e Negócios, municípios com baixos índices de desenvolvimento social concentraram metade dos desmatamentos registrados no país entre 2014 e 2018 por falta de alternativas econômicas sustentáveis. Segundo a pesquisadora, a proteção ambiental dependeria da promoção de oportunidades que substituíssem tais atividades ilegais e predatórias.
O Texto 3 destaca as vantagens do desenvolvimento sustentável para a economia, enfatizando que a diversificação produtiva e a criação de novos negócios tornam o país mais resiliente a crises e ampliam sua inserção em mercados internacionais. Além disso, ressalta os benefícios ambientais desse modelo de desenvolvimento, como o uso racional dos recursos naturais, a redução da poluição e das emissões de gases de efeito estufa, bem como a preservação da biodiversidade e a garantia de recursos naturais para as futuras gerações.
POSSIBILIDADES DE ENCAMINHAMENTO
1. Posicionamento que enfatiza os desafios
A argumentação pode ser elaborada para amparar a tese de que um cenário de desenvolvimento econômico sustentável enfrenta profundos obstáculos estruturais para se tornar efetivo, ou seja, ele é menos uma realidade possível e mais uma utopia, um objetivo distante que, para ser concretizado, depende de mudanças políticas, econômicas e culturais de larga escala. Nesse cenário mais pessimista, alguns desafios poderiam ser analisados, tais como:
- O predomínio do modelo econômico hegemônico, fundamentado na premissa de recursos naturais ilimitados, na sua consequente exploração intensiva para a maximização dos lucros e na lógica do crescimento linear a qualquer custo. Essa dinâmica econômica é incompatível com a concepção de escassez e finitude dos recursos naturais, bem como evidencia a dificuldade de conciliar expansão econômica e preservação ambiental.
- A persistência das desigualdades sociais, educacionais, tecnológicas e territoriais dificulta o acesso aos benefícios do desenvolvimento econômico, empurrando parte da população mais vulnerável para práticas predatórias ao meio ambiente e ao convívio social. Por se tratar de uma desigualdade estruturante do capitalismo neoliberal, ou seja, as assimetrias são parte constitutiva desse sistema de produção, torna-se muito difícil que sejam superadas em nome de um desenvolvimento sustentável do ponto de vista social e ambiental.
- Resultado de profundas desigualdades de formação, oportunidades e mercados, populações mais vulneráveis acabam promovendo práticas ambientais predatórias, como o desmatamento ilegal e o descarte irregular de lixo, e mesmo comportamentos socialmente danosos, como a criminalidade. O desenvolvimento econômico sustentável precisa lidar com essas componentes complexas e estruturais de muitas sociedades contemporâneas, resultantes da fragilidade de políticas públicas e reduzida fiscalização ambiental.
2. Posicionamento que enfatiza as oportunidades
Para dar suporte a esse posicionamento, a argumentação deve enfatizar o desenvolvimento sustentável como uma forma promissora de conciliar crescimento econômico, justiça social e preservação ambiental, conforme o recorte temático apresentado nos textos que compuseram a coletânea. Nessa perspectiva, que enfatiza as oportunidades, o desenvolvimento sustentável pode ser analisado como um vetor de modernização econômica e de fortalecimento social. Para isso, alguns aspectos socioambientais poderiam ser considerados, tais como:
- A transição para uma economia mais sustentável levaria à inovação tecnológica, à geração de novos negócios e empregos fundamentados no combate ao desperdício e na preservação ambiental. Novos setores econômicos devem se originar da lógica de proteção no lugar da de degradação, como o de energias renováveis, o da economia circular e o das tecnologias verdes. Se entendida como um contexto econômico que pode se expandir com consciência de finitude dos recursos naturais, a economia sustentável pode romper (ou racionalizar) os padrões atuais de produção e consumo, ainda que lentamente.
- Ao diversificar a base produtiva, seja por meio do desenvolvimento de novas tecnologias e novos mercados amigáveis ao meio ambiente, seja pela real inclusão dos mais vulneráveis, a economia nacional poderia se tornar não só mais resiliente ante crises internacionais, como também mais competitiva, especialmente em um mercado global ávido por soluções socioclimáticas que também representem novas oportunidades de negócios.
- A economia sustentável tem ganhado espaço não como uma ruptura com o modelo econômico vigente ou como entrave ao progresso, mas como uma agenda capaz de melhorar a qualidade de vida, diminuir desigualdades, garantir o uso responsável dos recursos naturais, desenvolver tecnologias e ampliar mercados. Sob esse enfoque, a sustentabilidade passa a ser compreendida como posicionamento estratégico, capaz de promover crescimento econômico aliado à melhoria da qualidade de vida e à preservação ambiental.
3. Posicionamento que equilibra desafios e oportunidades
Uma vez que a frase-tema apresenta a dicotomia desafios-oportunidades não de uma forma autoexcludente, mas aditiva (por meio da conjunção “e”), a dissertação poderia conciliar as duas visões de mundo. Para tanto, poderiam ser considerados os seguintes aspectos:
- Inicialmente, poderia ser apresentada uma visão mais realista do tema, reconhecendo que o desenvolvimento econômico sustentável envolve desafios significativos, como a superação de desigualdades sociais, a mudança de modelos produtivos tradicionais e predatórios do meio ambiente e a proposição e efetivação de políticas públicas eficazes para o desenvolvimento de regiões mais vulneráveis. Assim, a sustentabilidade não seria entendida como um processo linear, idealizado, isento de conflitos ou contradições, ou como uma situação que sucederá, de maneira maniqueísta, o atual modelo econômico hegemônico.
- Em um segundo momento, passaria a ser defendida a ideia de que esses entraves não anulam as oportunidades geradas pelo desenvolvimento sustentável. Aliás, a própria persistência desses cenários desafiadores enfatiza a urgência e o potencial transformador da sustentabilidade em sua capacidade de inclusão, inovação e preservação. Segundo essa perspectiva, o desenvolvimento sustentável seria concebido como um processo gradual, que exige enfrentamento dos problemas estruturais para que suas oportunidades se concretizem de forma ampla e duradoura, no longo prazo.
SUGESTÕES DE REPERTÓRIOS
A fim de dar mais consistência à argumentação, pensadores, conceitos, exemplos, comparações, atualidades, ou seja, repertórios dos mais variados tipos poderiam ser articulados com os comentários referentes aos desafios e/ou oportunidades relacionados ao desenvolvimento econômico sustentável. Seguem algumas possibilidades:
- Hans Jonas: O princípio da responsabilidade sustenta a obrigação ética de se considerarem os impactos das ações humanas sobre as futuras gerações. O desenvolvimento econômico sustentável seria um meio para alcançarmos a responsabilidade intergeracional, garantindo, hoje, as condições de existência dos que nos sucederão.
- Ignacy Sachs: pai do conceito de ecodesenvolvimento, ele defende a integração entre crescimento econômico, justiça social e preservação ambiental. Para o economista polonês, o pensamento econômico não pode ser desvencilhado, primordialmente, da necessidade de superar desigualdades sociais e de proteção do meio ambiente.
- COP (Conference of the Parties – ou Conferência das Partes): reunião anual dos países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), seus debates têm atrelado proteção ambiental a modelos de desenvolvimento econômico mais sustentáveis. Nesse cenário, a “Agenda 2030 da ONU” e os “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)” são materializações dos esforços por mudanças globais.
- Revolução Industrial: do ponto de vista histórico, o incremento nos modelos de produção fabril, especialmente a partir do século XVIII, foram acompanhados pela degradação das condições de trabalho e pela concepção de que os recursos naturais são ilimitados.
- Desmatamento na Amazônia: a incapacidade de o Estado brasileiro frear a degradação ambiental na região amazônica por um lado tem atraído a atenção mundial para o debate sobre o financiamento da proteção; por outro, se mostra como resultado da modelo econômico que busca o lucro de forma inconsequente e da ineficácia de fiscalização por parte das autoridades.
Distopias ambientais no cinema: diversas obras cinematográficas abordam as consequências ambientais de um desenvolvimento econômico predatório e irresponsável, tais como os filmes O dia depois de amanhã, Interestelar, Mad Max: Estrada da Fúria e animações como Lorax e Wall-e.
