Neste ano, a prova de redação do Insper foi elaborada pela banca Vunesp e, como já é característico desse tipo de prova, foi solicitado aos candidatos que redigissem uma dissertação do tipo argumentativo sobre um tema polarizado e atual na sociedade. A questão abordada neste ano foi: “Cirurgias plásticas: modificar-se compromete ou reforça aspectos de identidade?”. Para que os candidatos tivessem embasamento suficiente sobre o tema e delimitassem o recorte temático da discussão, a banca forneceu quatro textos de apoio em sua coletânea.

O primeiro texto apresenta o fato de que o Brasil é líder mundial em número de cirurgias plásticas desde 2023, e muitos pedidos vão além da estética convencional, refletindo desejos identitários. Isso porque, segundo especialistas, os pacientes buscam alinhar aparência com aspirações profundas, como autoconfiança e pertencimento. Desse modo, esse primeiro texto motivador sugere que a cirurgia plástica pode reforçar aspectos da identidade, pois é vista como um meio de expressar quem a pessoa deseja ser, de modo que a mudança não é necessariamente superficial, mas ligada à autoestima e à realização pessoal.

O texto 2 questiona como a busca por padrões estéticos afeta a identidade cultural. O depoimento de uma modelo de destaque internacional é apresentado de maneira a reforçar essa ideia; ela afirma que lamenta ter perdido traços étnicos após sua rinoplastia, destacando que diversidade é riqueza e padrões variam entre culturas. Neste excerto, fica nítido que a cirurgia pode comprometer aspectos da identidade, especialmente cultural, ao apagar características que conectam a pessoa às suas origens.

O texto 3 mostra o relato da dermatologista Elaine Togoe Kunze, a qual afirma como redes sociais e filtros têm influenciado jovens a buscar cirurgias para parecer com celebridades. No entanto, a médica alerta para o fato de que cada rosto é único, assim como uma impressão digital, e mudanças excessivas podem tornar alguém irreconhecível até mesmo em documentos. Nesse sentido, reforça-se a ideia de que a cirurgia é vista como ameaça à identidade individual, pois pode apagar singularidades e criar uma aparência artificial, desconectada da essência da pessoa.

Por fim, o texto 4 explicita que cresce a busca por aparência natural e bem-estar, mas não por perfeição necessariamente. Isso porque cirurgias são usadas para reconectar a pessoa com sua imagem em novos momentos da vida, como no pós-parto. Ou seja, a cirurgia pode reforçar a identidade, pois ajuda a pessoa a se sentir autêntica e confortável, adaptando-se a mudanças naturais sem negar quem é.

Possíveis recortes temáticos

  • Delimitação do conceito de identidade: pode ser cultural, individual, social ou psicológica.
  • Discussão sobre padrões de beleza: como eles influenciam a percepção de identidade.
  • Impacto das redes sociais: pressão estética versus autenticidade.
  • Dimensão ética e social: até que ponto se modificar é liberdade ou submissão a padrões?
  • Ressalvas: quando a cirurgia é necessária (reconstrução, saúde) ou feita com consciência.

Possibilidades de encaminhamento

a) Cirurgia plástica como comprometedora de aspectos da identidade (posicionamento contemplado, predominantemente, pelos textos 2 e 3)

  1. Perda de traços culturais e étnicos: aqui, é possível afirmar que, ao buscar padrões globais, apaga-se, por consequência, a diversidade e a conexão individual com suas próprias origens.
  2. Uniformização estética: um dos motivadores das cirurgias plásticas é a influência das redes sociais, que cria e propaga, de maneira massiva, “rostos padrão”, reduzindo as singularidades de cada indivíduo.
  3. Desconexão com a própria imagem: mudanças excessivas devem ser encaradas de maneira cautelosa, e isso porque podem gerar desconexão com a própria imagem e até problemas psicológicos, de maneira que o indivíduo pode sentir que perdeu traços que faziam parte de sua identidade.

b) Cirurgia plástica como reforço da própria identidade (posicionamento contemplado, predominantemente, pelos textos 1 e 4)

  1. Autonomia e expressão pessoal: é possível defender a ideia de que a cirurgia plástica pode ser um procedimento que permite alinhar a aparência física com quem a pessoa deseja ser.
  2. Reconexão com a autoestima: procedimentos podem ajudar em momentos de transição, a exemplo da própria maternidade, como citado nos textos de apoio.
  3. Busca por autenticidade: há uma tendência atual de valorização da naturalidade e do bem-estar, não perfeição artificial, de maneira que a cirurgia plástica não precisa ser, necessariamente, uma ferramenta de descaracterização, mas de reforço dessas características.

c) Ressalva (posição intermediária)

  1. Liberdade com consciência: a cirurgia plástica pode ser válida quando feita por escolha própria, e não quando motivada por pressão social.
  2. Limite ético e psicológico: as mudanças podem ser consideradas válidas a partir do momento em que se preservam traços identitários essenciais para evitar alienação.
  3. Função reparadora: em casos de acidentes ou deformidades, a cirurgia não compromete identidade, mas restaura dignidade.

Por fim, ainda que a Vunesp seja uma banca que não torna obrigatória a presença de repertório sociocultural, é sempre bom lembrar da importância que esse tipo de informação tem, já que pode garantir mais senso crítico e consistência argumentativa. Sendo assim, para abordar o tema “Cirurgias plásticas: modificar-se compromete ou reforça aspectos de identidade?” de maneira rica e fundamentada, diversos tipos de repertórios podem ser utilizados:

  1. Jean-Paul Sartre (Existencialismo): defende a ideia de que “A existência precede a essência”, ou seja, de que somos responsáveis por construir quem somos. Nesse sentido, a cirurgia plástica pode ser vista como um ato de liberdade e autenticidade, pois a pessoa escolhe sua aparência para expressar quem deseja ser.
  2. Michel Foucault (Biopolítica e controle do corpo): para Foucault, a sociedade exerce poder sobre os corpos, moldando comportamentos e padrões, e por isso a busca por cirurgias pode ser interpretada como submissão a normas estéticas impostas, comprometendo a autonomia e a identidade.
  3. Simone de Beauvoir (Construção social do corpo feminino): sua famosa frase “Não se nasce mulher, torna-se mulher” explicita a ideia de que gênero e aparência são construções sociais. Assim, dentro do contexto das cirurgias plásticas, elas podem ser vistas como resposta à pressão estética sobre as mulheres.
  4. Zygmunt Bauman (Modernidade líquida): em sua famosa obra, Bauman defende que identidades são fluidas e instáveis na sociedade contemporânea. Dessa forma, cirurgias plásticas podem ser expressão dessa fluidez, mas também gerar insegurança e busca incessante por aceitação.
  5. Pierre Bourdieu (Capital simbólico): aparência pode ser um capital social que garante status, e por isso as cirurgias podem ser vistas como investimento para ascensão social, mas isso reforça padrões e compromete autenticidade.
  6. “O Retrato de Dorian Gray” – Oscar Wilde: essa famosa obra literária, resumidamente, explicita, por meio de sua narração, como a obsessão pela aparência pode levar à corrupção moral e perda de essência por parte do indivíduo. Dessa forma, é possível estabelecer um paralelo entre a realidade e a história, já que, assim como Dorian – protagonista –, quem busca perfeição estética pode perder sua identidade real.
  7. Movimento Body Positive: movimento social que traz como pauta a valorização da diversidade corporal e a aceitação da aparência natural. Pode, portanto, ser utilizado como um contraponto à lógica das cirurgias plásticas, defendendo que identidade não depende de adequação a padrões.