Na proposta 1, o vestibular da Unicamp solicitou a elaboração de um depoimento pessoal sobre o tema “A machosfera e o discurso de ódio contra as mulheres”. O candidato deveria narrar um episódio violento testemunhado em uma comunidade virtual da machosfera e, em seguida, argumentar contra os discursos de ódio dirigidos às mulheres, que circulam no ciberespaço. Trata-se de uma proposta que exige não apenas relato, mas também posicionamento crítico, articulando experiência fictícia com reflexão fundamentada.
Na situação comunicativa, o candidato deveria assumir o papel de um jovem jornalista que, após se infiltrar em uma dessas comunidades para produzir uma série de reportagens, escreve o primeiro texto: um depoimento pessoal. O gênero solicitado pede linguagem subjetiva e expressiva, típica de relatos pessoais, mas também clareza argumentativa, pois há um propósito persuasivo: combater discursos misóginos. O público-alvo é amplo, já que o texto será publicado em um jornal impresso, o que exige adequação à norma culta e à ética jornalística.
Para a escrita de seu depoimento, o candidato deveria se valer, obrigatoriamente e de maneira crítica, das informações presentes na coletânea, composta por quatro textos de apoio. O texto 1 apresenta a série Adolescência e discute como conteúdos redpill e incel, presentes na machosfera, podem radicalizar adolescentes vulneráveis, levando discursos de ódio online a se concretizarem em crimes reais. O texto 2 relata casos reais de violência extrema cometida por jovens ligados à ideologia incel, como Elliot Rodger (EUA), Alek Minassian (Canadá) e Jake Davison (Reino Unido), mostrando a gravidade do problema e sua dimensão internacional. O texto 3 defende a necessidade de uma resposta coordenada entre poder público e sociedade civil, citando leis brasileiras que combatem violência de gênero e crimes digitais, como a Lei Maria da Penha, a Lei Lola Aronovich e a Lei dos Deepfakes. Por fim, o texto 4 apresenta uma análise psicológica sobre os sentimentos que alimentam a radicalização masculina, como culpa, vergonha e sofrimento invisível, que podem evoluir para violência e disruptividade social.
Esses textos de apoio poderiam ser aproveitados da seguinte maneira, levando-se em consideração o cumprimento dos comandos:
1. Propósito (a): narrar um episódio violento testemunhado na comunidade virtual
- O candidato deve criar uma narrativa verossímil, coerente com o papel assumido (jovem jornalista infiltrado na machosfera).
- É importante que o episódio seja impactante, mas não sensacionalista: pode envolver uma conversa em fórum, um comentário incitando violência, ou um relato de planejamento de ataque.
- A narrativa deve ser subjetiva, com marcas de envolvimento emocional (ex.: “fiquei chocado”, “senti medo”), pois isso caracteriza o gênero depoimento pessoal.
- Para dar credibilidade ao depoimento, a apropriação dos seguintes elementos da coletânea poderiam ajudar:
- Texto 1: descreve como conteúdos redpill e incel radicalizam adolescentes. O candidato pode mencionar que observou discussões sobre “superioridade masculina” ou “vingança contra mulheres”, termos presentes no texto.
- Texto 2: apresenta casos reais de violência extrema. O narrador pode citar que membros da comunidade reverenciam Elliot Rodger ou Alek Minassian como “heróis”, reforçando a gravidade do ambiente.
2. Propósito (b): argumentar contra os discursos de ódio dirigidos às mulheres
- Após a narrativa, o candidato deve assumir uma postura crítica, articulando argumentos que demonstrem compreensão do problema e que proponham caminhos para enfrentá-lo.
- Estratégias possíveis:
- Apelo à ética e à cidadania: destacar que discursos misóginos violam direitos humanos e ameaçam a convivência democrática.
- Exemplos concretos: mencionar que casos como os relatados no Texto 2 levaram países a considerar grupos incels como organizações terroristas, reforçando a urgência de medidas.
- O tom deve ser reflexivo e propositivo, sugerindo soluções como educação digital, campanhas de conscientização e apoio psicológico a jovens vulneráveis.
- Uso da coletânea para fundamentação:
- Texto 3: citar leis brasileiras que combatem violência online (Lei Maria da Penha, Lei Lola Aronovich, Lei do Sinal Vermelho, Lei dos Deepfakes), mostrando que o Estado reconhece a gravidade do problema.
- Texto 4: trazer a análise psicológica de Christian Dunker para explicar que a violência nasce de sentimentos mal elaborados, como culpa e vergonha, e que isso exige políticas públicas e educação para prevenção.
3. Repertório cultural próprio
- É permitido enriquecer o texto com referências externas, desde que pertinentes e integradas tanto à argumentação quanto ao uso – obrigatório – dos textos motivadores. Exemplos:
- Séries ou filmes que abordem violência de gênero ou radicalização online (Adolescência, citada no Texto 1, pode ser retomada).
- Notícias recentes sobre crimes motivados por misoginia (Thiago Schutz, conhecido como “O calvo do Campari”, que foi preso em flagrante por agressão contra a namorada).
- Conceitos sociológicos ou psicológicos relacionados à masculinidade tóxica ou à cultura do ódio.
