Os festejos do carnaval, com todos os atos e ritos cômicos que a ele se ligam, ocupavam um lugar muito importante na vida do homem medieval. [...]
O princípio cômico que preside aos ritos do carnaval liberta-os totalmente de qualquer dogmatismo religioso ou eclesiástico, do misticismo, da piedade, e eles são além disso completamente desprovidos de caráter mágico ou encantatório (não pedem nem exigem nada).
[...] o carnaval ignora toda distinção entre atores e espectadores. [...] Os espectadores não assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval pela sua própria natureza existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra vida senão a do carnaval. Impossível escapar a ela, pois o carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da festa, só se pode viver de acordo com as suas leis, isto é, as leis da liberdade.
(Mikhail Mikhailovitch Bakhtin. A cultura popular na Idade Média
e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, 1987.)
No excerto, a descrição do carnaval enfatiza que a festa era
O excerto de Mikhail Bakhtin destaca o caráter libertador e popular do carnaval na Idade Média. Ele descreve a festa como um momento de suspensão das normas sociais, religiosas e hierárquicas. Durante o carnaval, todos participam igualmente — sem distinção entre atores e espectadores —, e as regras do cotidiano são substituídas por uma lógica própria, marcada pelo riso, pelo improviso e pela liberdade. Além disso, o texto enfatiza que os ritos cômicos do carnaval não possuem vínculo com dogmas religiosos, tampouco com elementos místicos ou sagrados. O carnaval é, portanto, um espaço não religioso e não institucional, no qual o povo experimenta uma vivência coletiva intensa, rompendo com a rigidez da vida medieval comum. Nesse sentido, tratava-se de uma festa “envolvente, libertadora e alheia a qualquer manifestação religiosa”, considerando sua capacidade de subverter a ordem cotidiana e permitir ao povo uma vivência momentânea de liberdade.