É preciso ler esse livro singular sem a obsessão de enquadrá-lo em um determinado gênero literário, o que implicaria prejuízo paralisante. Ao contrário, a abertura a mais de uma perspectiva é o modo próprio de enfrentá-lo. A descrição minuciosa, pedantemente minuciosa, da terra, do homem e da luta situa essa obra, de pleno direito, no nível da cultura científica e histórica. Seu autor fez geografia humana e sociologia como um espírito atilado poderia fazê-lo no começo do século XX, em nosso meio intelectual, então avesso à observação demorada e à pesquisa pura. Situando a obra na evolução do pensamento brasileiro, diz lucidamente Antonio Candido: “Livro posto entre a literatura e a sociologia naturalista, essa obra assinala um fim e um começo: o fim do imperialismo literário, o começo da análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira (no caso, as contradições contidas na diferença de cultura entre as regiões litorâneas e o interior).”

(Alfredo Bosi. O pré-modernismo, 1973. Adaptado.)

Tal comentário aplica-se à obra

  • a

    Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto. 

  • b

    Os sertões, de Euclides da Cunha. 

  • c

    Capitães da areia, de Jorge Amado. 

  • d

    Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. 

  • e

    Vidas secas, de Graciliano Ramos.

Uma das características mais relevantes de Os sertões, de Euclides da Cunha, é justamente seu caráter híbrido, misto de análise sociológica e Literatura. A obra lançou um olhar potente e inovador sobre um evento relevante da realidade social brasileira do final do século XIX: o conflito de Canudos, que opôs o Estado brasileiro e os seguidores do líder religioso Antônio Conselheiro, resultando em um morticínio de grandes proporções. Um detalhe da questão é que Os sertões é a única obra pré-modernista dentre as listadas nas alternativas, e a referência do texto traz o título “O pré-modernismo”.