Eu poderia concluir que a raiva é um pensamento, que estar com raiva é pensar que alguém é detestável, e que esse pensamento, como todos os outros — assim como Descartes o mostrou —, não poderia residir em nenhum fragmento de matéria. A raiva seria, portanto, espírito. Porém, quando me volto para minha própria experiência da raiva, devo confessar que ela não estava fora do meu corpo, mas inexplicavelmente nele.
MERLEAU-PONTY. M. Quinta conversa: o homem visto de fora.
São Paulo. Martins Fontes, 1948 (adaptado)
No que se refere ao problema do corpo, a filosofia cartesiana apresenta-se como contraponto ao entendimento expresso no texto por
A questão aborda um contraponto entre a fenomenologia de Merleau-Ponty e a de Descartes. O primeiro privilegia as experiências do corpo como não descoladas do espírito ou da alma. Já Descartes sustenta uma oposição fundamental entre corpo e espírito, ou seja, uma visão dualista.